02 fevereiro 2009

Two Heads

"Two Heads", Helena Nogueira da Silva

Duas cabeças na carpete, sem dúvida acrílica, do escritório do general, colocadas uma ao lado da outra, como quilhas, quase roçando entre si. Duas cabeças, bolas inertes, dois cérebros que o sangue já não irriga, dois ordenadores interrompidos na sua tarefa, que já não filtram nem descodificam o perpétuo fluxo das imagens, de impressões, estímulos e respostas que aos milhões nos atravessam todos os dias, formando no seu conjunto aquilo a que chamamos a vida do espírito e mesmo a dos sentidos e motivando e dirigindo os movimentos do resto do corpo. Duas cabeças decapitadas, partindo para um mundo diferente onde vigoram outras leis e que, ao serem contempladas, produzem mais estupefacção do que horror. Os juízos de valor, morais, políticos, ou estéticos, ficam, na sua presença, momentaneamente suspensos. A noção que se impõe é mais desconcertante e simples: entre as miríades de coisas que existem e que existiram, estas duas cabeças existiram; existem. O que enche agora esses olhos que já não vêem, não é a bandeira desfraldada dos protestos políticos, nem nenhuma outra imagem intelectual ou carnal, nem sequer o vazio que Honda contemplara e que parece agora um conceito ou um símbolo, apesar de tudo demasiado humano. Dois objectos, restos quase inorgânicos de estruturas destruídas e que depois de passarem pelo fogo serão apenas minerais e cinzas. Não são, sequer temas possíveis de meditação, pois faltam-nos os dados para podermos meditar sobre eles.
Dois destroços arrastados pelo Rio da Acção, que uma vaga imensa deixou por um instante a seco sobre o areal, antes de os voltar a levar consigo.
Marguerite Yourcenar, Mishima ou a Visão do Vazio

15 comentários:

Anónimo disse...

.. momentaneamente suspensos.
I.

isabel mendes ferreira disse...

suspenso o pensar ou o ser?



_____________

beijo.


grato. íssimo.

ana disse...

Bright blue post.

Bandida disse...

ontem andei por aqui sem saber o que dizer. o texto é magnífico. as "two heads" também.

saídas dos destroços do vazio?


um grande abraço BB

Ca:mila disse...

estupefação muito bem narrada, no mais, um estado atônito.


ps: muito bom saber da tradução do mário cesariny, um excelente poeta.

Haddock disse...

janus em pleno fevereiro...??
o ritmo da mudança coagida.
desmentir lampedusa??

'tamos p'o ('seudo) intelectual...

e...

abraço entrecostal!!

observatory disse...

olho...

visão de osga?


ps: tou com a vida social no fundo :)

Anónimo disse...

"Não são, sequer temas possíveis de meditação, pois faltam-nos os dados para podermos meditar sobre eles."

quemsabequemtués

intruso disse...

Yourcenar, Mishima, o 'Vazio',,,
e o desenho líndissimo da Helena

:)

uma vaga imensa e uma nova 'visão'...


abraço

(excelente post...)

purita disse...

sempre ouvi dizer que duas cabeças pensam melhor que uma

Frioleiras disse...

Marguerite Yourcenar......

(a vontade, de repente, de a ler,

novamente... )

Anónimo disse...

Para nós o perpétuo fluxo das imagens. Mishima e Yourcenar.

Ana S.

corpo visível disse...

.
eu por acaso até acho que são temas possíveis de meditação.
.

Naked Lunch disse...

"Os juízos de valor, morais, políticos, ou estéticos, ficam, na sua presença, momentaneamente suspensos." :)

[A] disse...

já li e reli.
como a B., também não sei o que dizer.
acho a escrita da Marguerite Yourcenar de uma beleza tão grande a nível formal que chego a distrair-me do sentido.


continuo com o Zenão.
continuarei e não quero que acabe.