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12 janeiro 2010

Há-de ser isso e nada mais...


And the silken sad uncertain rustling of each purple curtain
Thrilled me—filled me with fantastic terrors never felt before;
So that now, to still the beating of my heart, I stood repeating,
“’Tis some visitor entreating entrance at my chamber door,
Some late visitor entreating entrance at my chamber door;
This it is, and nothing more.”

Gustave Doré, Ilustrações de "O Corvo" de Edgar Allan Poe

26 fevereiro 2009

As Cidades e os Olhos

CODEX SERAPHINIANUS, Luigi Serafini (Seraphianus), 1981.

…Chegados a Filias comprazemo-nos a observar quantas pontes diferentes umas das outras atravessam os canais: pontes em arco, cobertas, sobre pilares, de barcas, suspensas, com os parapeitos perfurados; quantas variedades de janelas se vêem sobre as ruas: geminadas, mouriscas, lanceoladas, em ogiva, encimadas por lunetas ou por florões; quantas espécies de pavimentos cobrem o solo: de mosaicos, de lajes, de saibro, de azulejos brancos e azuis. Em cada um dos seus pontos, a cidade surpreende a vista: um cesto de alcaparras a sair da muralha da fortaleza, as estátuas de três rainhas sobre um pedestal, uma cúpula em cebola com três cebolinhas enfiadas na agulha do pináculo. "Bem-aventurado quem tem todos os dias Filias sob os olhos e nunca deixa de ver as coisas que contém", exclamamos com a tristeza de ter de abandonar a cidade depois de havê-la só aflorado com o olhar.

Mas acontece-nos ficarmos em Filias e passarmos lá o resto dos nossos dias. Em breve a cidade empalidece aos nossos olhos, cancelam-se os florões, as estátuas sobre os pedestais, as cúpulas. Tal como todos os habitantes de Filias, seguimos linhas em ziguezague de uma rua para outra, distinguimos zonas de sol e zonas de sombra, aqui uma porta, ali uma escada, um banco onde podemos pousar o cesto, uma cunha onde o pé tropeça se não dermos por ela. Todo o resto da cidade é invisível. Filias é um espaço em que se traçam percursos entre pontos suspensos no vácuo, o caminho mais curto para chegar à loja daquele mercador evitando o portal daquele credor. Os nossos passos percorrem não o que se encontra fora (do alcance) dos olhos mas sim dentro, sepultado e apagado: se entre dois pórticos um continuar a parecer-nos mais alegre é porque é aquele por onde passava há trinta anos uma rapariga de largas mangas bordadas, ou é só porque recebe a luz a uma certa hora como aquele pórtico, que já não nos lembramos onde ficava.
Milhões de olhos erguem-se para as janelas pontes alcaparras e é como se percorressem uma página em branco. Muitas são as cidades como Filias que se subtraem aos olhares se não as apanharmos de surpresa.
Italo Calvino, As Cidades Invisíveis

Sexto dedo

19 janeiro 2009

03 novembro 2008


'Victorin levantando vôo da ponta do Rochedo do Monte Inacessível para ir à descoberta Austral...' Gravura de Louis Binet, no livro de Rétif de la Bretonne, ' La Découverte Australe par un Homme Volant ou Le Dédale Français' , 1781, tomo primeiro

28 outubro 2008

O Mocho

Rétif de La Bretonne, Les nuits de Paris, ou Le spectateur nocturne, Londres, 1788, tomo primeiro

"Sujet de la FIGURE de la XIII.me Partie. SOUPER CÉLÈBRE: Le Spectateur nocturne à table ,au second souper, entre l'Auteur du TABLEAU-DE-PARIS, et Du-Hameauneuf, dans une salle superbement illuminée: On porte un service, avec appareil: Baïard: Cortége: Ifs ou Servantes: "QUIETI ET MUSIS", Rétif de La Bretonne, Les nuits de Paris, ou Le spectateur nocturne, tomo VII, 1789.

Qu'est ce que la nuit? -Vous alez repondre à votre question? -Sur la Terre c'est douze heures pendant lesquelles le Soleil éclaire l'autre hemisphère également partagées sous l'équateur; inégalement audelà des tropiques; mais cependant revenant toujours à douze heures, en compensant les grands jours par les petits.
Sur la lune, c'est quatorze de nos jours, & autant de nos nuits, pendant lesquels un de ses hemisphères est dans les tenèbres.
Pour les Êtres qui vivent dans Mars, c'est douze heures-un-quart & demi, c'est à dire, qu'il tourne sur lui même, à trois quarts-d'heures près, aussi rapidement que notre Globe. Ce qui peutêtre n'est pas exact. Mars devrait avoir une revolution diurne plus rapide que celle de la Terre.

Restif de La Bretonne, Les nuits de Paris, ou Le spectateur nocturne, tomo primeiro, pp. 55-56.

22 outubro 2008

"Masks of Difference"


Jacques Le Moyne de Morgues (c. 1533 – 1588)
Young Daughter of the Picts, c. 1585
Watercolour and gouache, touched with gold, on parchment
New Haven, Yale Center for British Art
Paul Mellon’s Legacy

30 janeiro 2008

"...follow the stairs a little further..."

G. B. Piranesi Carceri d"invenzione, Plate XIV 1st state, 1745

Many years ago, when I was looking over Piranesi’s, Antiquities of Rome, Mr. Coleridge, who was standing by, described to me a set of plates by that artist, called his Dreams, and which record the scenery of his own visions during the delirium of a fever. Some of them (I describe only from memory of Mr. Coleridge’s account)represented vast Gothic halls, on the floor of which stood all sorts of engines and machinery, wheels, cables, pulleys, levers, catapults, &c. &c., expressive of enormous power put forth and resistance overcome. Creeping along the sides of the walls you perceived a staircase; and upon it, groping his way upwards, was Piranesi himself: follow the stairs a little further and you perceive it come to a sudden and abrupt termination without any balustrade, and allowing no step onwards to him who had reached the extremity except into the depths below. Whatever is to become of poor Piranesi, you suppose at least that his labours must in some way terminate here. But raise your eyes, and behold a second flight of stairs still higher, on which again Piranesi is perceived, but this time standing on the very brink of the abyss. Again elevate your eye, and a still more aërial flight of stairs is beheld, and again is poor Piranesi busy on his aspiring labours; and so on, until the unfinished stairs and Piranesi both are lost in the upper gloom of the hall. With the same power of endless growth and self-reproduction did my architecture proceed in dreams. In the early stage of my malady the splendours of my dreams were indeed chiefly architectural; and I beheld such pomp of cities and palaces as was never yet beheld by the waking eye unless in the clouds.

Thomas de Quincey, Confessions of an English Opium-Eater (1821-22)

M.C. Escher, Convex and Concave, 1955

30 dezembro 2006

09 setembro 2005