13 outubro 2006

"Em Torno"






"homem do lixo"
Nuno Ramalho e Renato Ferrão
Caixote do lixo no lado esquerdo do canteiro central à entrada do jardim do palácio de cristal, Instalação

Em tempos, um homem mudo e velho vendia jornais na entrada do palácio. Dizia-se que perdera a fala de um momento para o outro e o próprio sempre se escusou a dizer, por escrito ou outro meio, o que lhe sucedera. Era eu ainda novo quando um antigo guarda do parque me satisfez a curiosidade acerca daquela figura triste que à entrada me chamava a atenção.
O caso dera-se no principio do Verão, uma tarde após o almoço num dos bancos do jardim. Um estudante frequentador da biblioteca adormeceu enquanto lia os classificados de um jornal. Ao acordar com as folhas revolvidas no rosto teve a sensação que algumas horas haviam passado. Certo que perdera o dia e sentindo-se incómodo na situação, levantou-se entorpecido do corpo e olhando para a folha impressa que deslizava do colo para os pés. Intuitivo, agachou-se para a recuperar e com espanto, reparou que na secção de necrologia, entre todos os rostos se apresentava também o seu. Passou incrédulo os olhos pela habitual condolência e leu o seu nome. Fixou confuso durante algum tempo o inequívoco retrato. Atordoado com a singularidade dos acontecimentos, resolveu esquecer para assim se conservar. Decidiu abalar e enfiou rapidamente o jornal num cesto para papéis quando pela abertura, uma voz que não lhe soou de todo estranha o devolveu á inquietação: “ser é ser retratado” ouviu. Com as pernas a tremer verificou que não conseguia largar o jornal ou recolher o braço que agora sentia rígido, o esforço do movimento parecia envolver ainda mais para dentro, como se qualquer tentativa fosse um passo para ser engolido. Sentindo-se refém na situação inquiriu o cesto nas suas intenções, ao que este retorquiu com a estranha afirmação proferida momentos antes, para de seguida propor que a remoção da sua imagem na necrologia lhe custaria a voz. O estudante não reflectiu ante a estranha imobilidade que lhe magoava o braço, cedendo á proposta viu-se livre com as folhas de jornal na mão. Procurando ansioso o seu retrato, foi com alivio que não se identificou com qualquer daquelas fotografias.
Feliz com o desfecho do bizarro episódio, caminhou tranquilizando-se até perceber que não conseguira vociferar a satisfação que o invadira instantes antes e foi nessa altura que ouviu por trás de si, do interior do cesto de papéis, a sua própria voz: “ser é ser-se ouvido”.
Renato Ferrão (texto e voz)

07 outubro 2006

02 outubro 2006